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Exposição Individual

Viagem à Aurora do Mundo

Endereço

Av. Gov. Irineu Bornhausen, 5600 - Agronômica, Florianópolis - SC, 88025-202, Brasil

Data

04 de Fev até 24 de Mai

Local

MASC

Site

Horários de visitação

Colab


Catálogo da Exposição


Fran Favero

Curadora


De um percurso sensível e crítico, surge uma viagem. Um convite a pensar coletivamente as ecologias do viver a partir das obras de Celaine Refosco.


Como um horizonte brilhante iluminado pelo nascer das ideias, o ateliê da artista se configura como complexo ecossistema: é lugar de criação e reflexão, mas também espaço de convivência e cultivo. Sua casa e espaço de trabalho são indiscerníveis e adentrá-los é compreender imediatamente que o envolvimento de Celaine Refosco com a arte é inseparável do seu comprometimento com o mundo. A casa-ateliê habita um terreno que foi cuidadosamente recuperado pela artista, um restauro plantado, germinado e construído camada por camada, rico em diversidade, detalhes e profundidade, assim como suas pinturas.


O processo da artista vem ainda acompanhado por outras investigações e produções: das incursões ecológicas de Alexander von Humboldt, do encontro fortuito com a literatura de Érico Veríssimo, cujo livro confere o título a esta mostra, até a compreensão científica de fenômenos naturais, tudo se articula no fazer poético e se soma à sua vivência na paisagem.

A exposição é um convite para uma viagem conjunta. Visitá-la envolve se lançar em uma correnteza de água e ar, percorrer territórios e temporalidades, tornar-se também paisagem. Habitada por uma profusão de cores e múltiplos seres em conexão e confronto, Viagem à aurora do mundo apresenta as pinturas e desenhos de Celaine Refosco que ocupam diferentes suportes: dos empilhamentos de cor às instalações imersivas, da superfície do papel e da tela aos tecidos que evocam a fluidez dos rios e do correr do tempo. 

Sua obra está em fluxo, em intenso movimento: expande-se e se recolhe, assume a figuração e novamente se abstrai, explode em alvorada e não esconde a sua sombra, sobe à superfície e se lança à profundidade, impõe-se e ocupa o espaço para subitamente virar vestígio. Emprega a monumentalidade do grande formato sem perder a sensibilidade das pequenas coisas. A exuberância desse território poético não se separa das complexidades do viver e parte justamente de um mergulho crítico e radical no mundo. Aqui, a beleza é tratada como gesto irrevogável de resistência a ser cultivado, recuperado e reivindicado, como potência revolucionária de sonhar e construir aquilo que desejamos.

A mostra acompanha simultaneamente as fluências e as singularidades das obras de Celaine Refosco. O percurso expositivo é um convite a uma passagem fluida, com múltiplas entradas e saídas, porém há também pausas e respiros que permitem a atenção para cada trabalho. Três obras atuam como pontos de parada, tal qual pedras que nos apoiam quando percorremos um rio. São trabalhos recentes, todos produzidos em 2025, em que pulsam conceitos e procedimentos centrais para a artista. Coabitam com as obras legendas expandidas e perguntas disparadoras que não possuem uma função meramente educativa, mas que instigam o corpo e o pensamento de visitantes.

A primeira destas obras é Latitude -16.7672, Longitude -39.1424, uma coordenada geográfica que leva à Caraíva, no litoral sul da Bahia. Este foi um dos primeiros pontos de chegada do avanço colonialista português sobre o território brasileiro. A pintura propõe uma reflexão sobre nossa memória e história e resulta de uma imersão da artista nesta localidade, em suas cores e águas, em sua diversidade ambiental e cultural, preservadas sobretudo graças à luta do povo pataxó e das comunidades locais. 

Já em Rios voadores - Forças, obra inédita construída para a mostra, a artista experimenta, pela primeira vez, gestos mais amplos e velozes que passam de uma tela a outra, criando uma sequência de pinturas como rios em confluência. Afetada pela potência de fenômenos naturais como os rios voadores originários da Amazônia, a série irrompe com a intensidade de águas, ventanias, raios e vulcões. O mural parece se mover pela força estrondosa de correntezas, como nas águas da pororoca, palavra tupi que guarda uma resistência originária que permanece na língua e nos fenômenos naturais. 

Enquanto muitos trabalhos de Celaine Refosco evocam a força e exuberância da vida, a instalação Paisagem parte de uma reflexão acerca daquilo que limita a experiência do mundo. São muitos os processos que exaurem a energia vital, gerando corpos sem desejo, inseridos em contextos ambientais devastados e em cidades inóspitas, controlados por regimes de exploração e de colonialismo. Nesta obra, corpos flutuantes são agrupados e sobrepostos em múltiplas camadas de transparência, suas profundidades criam relevos e paisagens. A instalação se completa pelos corpos de visitantes que passam a compor esta paisagem quando a percorrem, evocando a potência da cooperação e das trocas que seguem imprescindíveis para a beleza e profundidade da experiência humana.

Voltar-se para a aurora do mundo é localizar seu início, seus princípios. É igualmente perceber seu estado atual, reconhecer sua finitude e extinções, identificar e combater pensamentos de dominação que podem levar o planeta e todos seus habitantes ao extermínio. Sobretudo, é um encontro com forças de origem e de filiação que nos impulsionam não só a recuperar caminhos interrompidos de pensamento e de convivência, mas a reimaginar futuros, pois a aurora de outros mundos está sempre prestes a irromper no horizonte.

Agradecemos ao Museu de Arte de Santa Catarina e à Fundação Catarinense de Cultura pela recepção a esta exposição. Este catálogo tem a importante missão de não apenas registrar e criar memória sobre esta mostra, mas de propor outras relações com a obra de Celaine Refosco em novas viagens que se desenham agora no folhear das páginas.

AURORAS E CREPÚSCULOS: AS ECOLOGIAS DE CELAINE REFOSCO

Colab

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